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A desafiadora adoção do disclosure e um caso que rendeu frutos positivos

A perda de um paciente decorrente de uma complicação inesperada é sempre um momento difícil. E é nesse contexto que entra o disclosure, termo da língua inglesa de difícil tradução, mas que envolve a divulgação aberta de um erro para o paciente que o sofreu ou para seus familiares, no caso de falecimento.

Esse foi o tema do workshop organizada pela ANAHP (Associação Nacional de Hospitais Privados) durante a feira Hospitalar 2019, principal evento da saúde da América Latina. Um dos casos mais emblemáticos exibidos no painel foi o da paciente Julia Lima. Internada aos 27 anos por uma trombose venosa profunda, ela faleceu por conta de um evento catastrófico após seis dias de internação no Hospital Israelita Albert Einstein.

“Quando isso ocorre chovem perguntas à família, ao corpo clínico e ao hospital. Daí a importância de um processo de disclosure”, afirma Fernanda Fernandes, gerente de Qualidade e Segurança do Paciente da instituição.

Acompanhada dos pais da paciente Julia, Chico e Sandra Lima, ela explicou o conceito de disclosure e utilizou o caso da jovem para mostrar a forma correta de aplicá-lo – e revelar que, de uma situação triste, podem ser extraídas mudanças importantes e que salvam vidas.

De acordo com ela, o desafio do disclosure está em responder três perguntas quando um evento adverso ocorre: O que aconteceu? Por que aconteceu? E o que fazer para que isso não ocorra de novo?

Já os riscos na falta de disclosure vão desde o impacto financeiro, pois erros podem gerar ações na justiça e posteriormente indenizações, até o impacto negativo na imagem da instituição, cuja qualidade dos serviços e credibilidade podem ser abaladas.

“Ao saber do falecimento inesperado da Julia por um evento catastrófico, fomos acionados e imediatamente conversamos com seus pais, que acompanharam toda a internação. Nessa hora você diz apenas o que ocorreu. É um momento de dor e é importante verificar a necessidade de suporte imediato para a família”, explica Fernanda.

Após a apuração do caso da Julia, onde foram detectados os erros cometidos, o hospital teve uma conversa de duas horas com seus pais, onde as três perguntas de disclosure perguntas foram respondidas. “É um momento de pedir desculpas e assumir responsabilidades”, contextualiza a gerente.

“Mesmo sofrendo com a prematura morte da Julia, nos dispomos a trabalhar com o Hospital Israelita Albert Einstein para ajudar a conter falhas e não permitir que outras famílias passem pelo que nós enfrentamos”, disse ele.

Mas, além disso, o caso da jovem paciente serviu para a criação do Programa Julia Lima pela segurança do paciente. Nesse momento seu pai, Chico, subiu ao palco e fez um relato emocionado sobre os últimos momentos ao lado da filha. Nele, citou 17 sinais que foram ignorados pelo corpo clínico e pelo médico titular.

Seu apelo por médicos mais humildes, que dividem informações e entendem que cuidam de pessoas, e não de doenças, se transformou, entre outras coisas, em uma série de códigos vigentes na instituição.

Entre eles o Código H (Hemorrágico), que previne sangramentos e provém atendimentos para pacientes com sangramentos ativos, foi responsável por 191 atendimentos em 34 meses, salvando 186 vidas.

Já os Códigos Help (um para profissionais de saúde e outro para pacientes e familiares), que permite ao corpo clínico acionar uma segunda opinião para casos difíceis, apesar da resistência de alguns médicos, também entrou em vigor. “Dos 17 acionamentos em 10 meses, tivemos dois casos cirúrgicos graves. Mais duas vidas que salvamos”.

A TV Doutor está presente na Hospitalar 2019, que acontece entre 21 e 24 de maio no Expo Center Norte, em São Paulo.

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